6 de mai. de 2013

Prenda minha, foi bom te encontrar...


O que eu tenho é o coração na mão, como o refrão da nossa música, que nunca mais tocou, amor. O que eu tenho são frases bonitas e algumas cartas, quatro, cinco, seis ou mais, que eu nunca vou mandar. O que eu tenho são lembranças de uma vida de cento e poucos dias que se reduziu ao pó não sei onde, como ou por quê.
Não caiu a ficha, só caiu a ligação. A tua voz, trilha sonora dos meus melhores dias, se perdeu, em algum lugar do tempo. Os teus olhos, vitrine dos meus sonhos, desejos e anseios, se fecharam num impulso tal qual uma guilhotina, cortando as minhas possibilidades de tornar real. O teu corpo, letargico, não mais responde aos meus estímulos urgentes. A barba, “era uma vez”. E hoje aquele teu sorriso foi tudo o que eu nunca quis pra mim.
O que foi que te cegou? Em que ponto fechou os olhos pra mim? Porque entre uma piscada e outra nós fomos um quase casal. Nós viramos noites, descobrimos o novo, repetimos o velho, acordamos e sorrimos, acordamos e nos entregamos, e depois fugimos, e corremos, corremos riscos, riscamos uma história, escrita a lápis, com espaço pra erros, e consequência dos erros, e acertos, e recompensa para os acertos, mas não focamos e seguimos, míopes, por caminhos diferentes.
Coubemos no mesmo andar, no mesmo quarto, no mesmo colchão de solteiro, no mesmo momento feliz. Fomos longe, muito longe. Dividimos sonhos. E por uns breves segundos, éramos o sonho um do outro. Por isso dormiamos tão bem juntos. Por isso o fechar os olhos era sossego, e não vontade de morrer. Eu não quero me matar. Eu quero matar a dor. Eu quero assassinar a realidade que tu me injetou veia a dentro. Eu quero não olhar pra cada canto do meu quarto, que já foi pequeno, e agora achá-lo imenso porque tu não está aqui pra preencher cada lacuna com o teu calor, sabor, a-m-o-r.
Somos um paradóxo por estarmos tão perto e tão longe, também. Somos dúvida, pura incerteza e segurança alguma. Não sei se ainda somos nós. Nós. Pega, amarra, prende, desata, mas não me solta. Não vá embora agora, que eu já quase era feliz. Não me deixe só, com o teu cheiro de roupa limpa e mente suja. Fique um pouco mais. Fique sempre. Ninguém sabe fazer o que você me faz. É exagero. Eu sou mesmo exagerada. Jogada aos teus pés, jogada de sorte ou azar. Quando não se tem nada a perder, só se tem a ganhar.
Temperei os teus dias e os conturbei. Fui algo de bom, em algum ponto. Fui o desassossego que você precisava, pra sentir que ainda vive e que não se fechou. A paz que tu não queria. Fui além, e quase alcancei. Mas são estranhas, afinal, essas vidas da gente. São tantas, e tão diferentes. São tantas, mas insuficientes. Vamos seguir em frente, até chegar ao mesmo lugar. Até chegar ao ponto em que nada no dividia. Vê se olha com carinho. Se a gente vai junto, vai bem. E continua...

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