O que eu tenho é o coração na
mão, como o refrão da nossa música, que nunca mais tocou, amor. O que eu tenho
são frases bonitas e algumas cartas, quatro, cinco, seis ou mais, que eu nunca
vou mandar. O que eu tenho são lembranças de uma vida de cento e poucos dias
que se reduziu ao pó não sei onde, como ou por quê.
Não caiu a ficha, só caiu a
ligação. A tua voz, trilha sonora dos meus melhores dias, se perdeu, em algum
lugar do tempo. Os teus olhos, vitrine dos meus sonhos, desejos e anseios, se
fecharam num impulso tal qual uma guilhotina, cortando as minhas possibilidades
de tornar real. O teu corpo, letargico, não mais responde aos meus estímulos
urgentes. A barba, “era uma vez”. E hoje aquele teu sorriso foi tudo o que eu
nunca quis pra mim.
O que foi que te cegou? Em que
ponto fechou os olhos pra mim? Porque entre uma piscada e outra nós fomos um
quase casal. Nós viramos noites, descobrimos o novo, repetimos o velho, acordamos
e sorrimos, acordamos e nos entregamos, e depois fugimos, e corremos, corremos
riscos, riscamos uma história, escrita a lápis, com espaço pra erros, e
consequência dos erros, e acertos, e recompensa para os acertos, mas não
focamos e seguimos, míopes, por caminhos diferentes.
Coubemos no mesmo andar, no mesmo
quarto, no mesmo colchão de solteiro, no mesmo momento feliz. Fomos longe, muito
longe. Dividimos sonhos. E por uns breves segundos, éramos o sonho um do outro.
Por isso dormiamos tão bem juntos. Por isso o fechar os olhos era sossego, e
não vontade de morrer. Eu não quero me matar. Eu quero matar a dor. Eu quero
assassinar a realidade que tu me injetou veia a dentro. Eu quero não olhar pra
cada canto do meu quarto, que já foi pequeno, e agora achá-lo imenso porque tu
não está aqui pra preencher cada lacuna com o teu calor, sabor, a-m-o-r.
Somos um paradóxo por estarmos
tão perto e tão longe, também. Somos dúvida, pura incerteza e segurança alguma.
Não sei se ainda somos nós. Nós. Pega, amarra, prende, desata, mas não me
solta. Não vá embora agora, que eu já quase era feliz. Não me deixe só, com o
teu cheiro de roupa limpa e mente suja. Fique um pouco mais. Fique sempre.
Ninguém sabe fazer o que você me faz. É exagero. Eu sou mesmo exagerada. Jogada
aos teus pés, jogada de sorte ou azar. Quando não se tem nada a perder, só se tem a ganhar.
Temperei os teus dias e os
conturbei. Fui algo de bom, em algum ponto. Fui o desassossego que você precisava,
pra sentir que ainda vive e que não se fechou. A paz que tu não queria. Fui
além, e quase alcancei. Mas são estranhas, afinal, essas vidas da gente. São
tantas, e tão diferentes. São tantas, mas insuficientes. Vamos seguir em
frente, até chegar ao mesmo lugar. Até chegar ao ponto em que nada no dividia.
Vê se olha com carinho. Se a gente vai junto, vai bem. E continua...
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