É só um banquinho de madeira qualquer. Um cantinho na sombra, que, se falasse, contaria histórias e momentos que, muito provavelmente, passaram despercebidos para o resto do mundo. É só o meu lugar preferido. Eu sentava ali, todos os dias, ao entardecer, pra esperar você sair do trabalho. Enquanto os ponteiros do relógio se arrastavam lentamente eu riscava palavras tortas e rimas pobres, tentando descrever a beleza do teu olhar. Um som ao longe anunciava as “seis e trinta”; a porta se abria e meu coração oscilava, batendo forte e fraco ao mesmo tempo e me fazendo ter medo de morrer antes de poder te ver de novo, te ver de perto. Teu sorriso ia abrindo caminho e quando finalmente nos aproximávamos tu me erguias num abraço cheio de jeito e curva. Eu retribuía te beijando com vontade e deslizando a mão pelas tuas costas, com desejo e malícia. Lembrávamos que não estávamos sozinhos e, mesmo sem querer, deixávamos de ser um só. O sol se escondia, tímido, e nos convidava a apreciar o espetáculo. Enquanto o dia se perdia em nuances psicodélicas, tu me falavas sobre o crepúsculo. Era um paradoxo. A prova da ligação entre o dia e a noite. Um não pode existir sem a outra. Para sempre juntos... Ambos não podem existir ao mesmo tempo. Eternamente separados. Eu ouvia com atenção enquanto desenhava círculos no teu joelho. Tua voz grossa silenciava e ficávamos ali, falando sobre tudo e não dizendo nada, numa estranha e perfeita sintonia. Não nos cobrávamos nada. Nem palavras nem atitudes. Sentíamos-nos a vontade com o silêncio, um nos braços do outro, e concordávamos que nada era melhor do que o momento em que nos procurávamos para saber sobre a correria e descobríamos que dava pra acabar o dia sendo escandalosamente feliz e tendo um pouco de paz. Eu sempre reclamava da rotina e tu odiavas a monotonia. Não defendíamos o que era certo ou errado e não nos preocupávamos com o consentimento da maioria. Não sabíamos o que o futuro nos reservava, não sabíamos o que nos esperava... Mas pouco importava o que viesse a ser desde que o vento estivesse ao nosso favor, que houvesse uma cerveja na mão, e, ao lado, o grande amor.
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