Preciso admitir: os dias têm se desenrolado lentamente desde a tua precoce partida. O sol fica tímido entre as nuvens e quando da sinais de sua grandeza ninguém parece interessado em parar para apreciar o show. Os dias não são mais dias. Tua ida alterou as forças da natureza, as ordens climáticas. Chove, chove, chove, mas não há arco-íris. Por vezes há um feixe de luz, que nada ilumina. Eu continuo dormindo do teu lado da cama. Eu continuo acordando cedo demais. Não abro os olhos. Anseio por teu beijo, que costumava me despertar para o sonho que era a nossa realidade. Abraço o teu travesseiro, contra o peito, bem forte, por causa da dor que se manifesta quando lembro que só o que me resta é, mesmo, lembrar. Meu corpo se arrasta pra fora da cama e tu continua me fitando com esses teus olhos insanos e inquietos, congelados pela fotografia. Eu ando sempre pelas mesmas ruas e mantenho, mesmo sem admitir, aquela esperança de, ao virar a esquina, ver você sorrindo desarmado, com boca, olhos e coração. Eu compro um copo do seu café preferido e o deixo esfriar. Eu procuro por todos os cantos da casa para encontrar alguma migalha, algum fio de cabelo, alguma roupa suja, alguma lembrança sua. Chego sempre ao mesmo lugar e, com os olhos fechados e algum esforço, lembro de você sentado, às seis da manhã, em frente à janela, segurando o violão e fazendo sair da brincadeira entre dedos e cordas uma perfeita sinfonia. Te vejo tímido ao perceber a minha presença e quase sinto o seu abraço depois do constrangimento. Vejo os teus óculos com pernas tortas sobre o livro de ficção, com as páginas amareladas, e choro ao perceber que os óculos não vão mais servir em ninguém. E que o fim da história tu nunca vai saber. Assim como eu perdi a serventia no momento em que tu partiu. Assim como eu, que não quero saber do fim. Nós éramos jovens e apaixonados. E você foi embora cedo demais...
Um comentário:
Posso só ficar lendo e relendo tudo isso? Fico bem quetinha, que é pra não estragar a beleza de tudo que foi tão transparentemente escrito. As suas saudades doídas conseguiram me alcançar, aqui. :*
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